Vamos conversar sobre diversidade?

Vamos conversar sobre diversidade?

Alexandre Ruiz, Digital Strategy Coordinator – com a participação da Tatiane Lucena

Falar sobre diversidade no mercado de trabalho ainda é um tabu no mundo corporativo, sendo que a abordagem sobre o tema deveria estar sempre em pauta. Mesmo sendo um assunto antigo – em alguns países a discussão já é aberta desde a década de 60 – pesquisas recentes apontam que ainda há muito despreparo nas empresas brasileiras para lidar com o tema. O primeiro grupo de debate formado por profissionais LGBTQ nos Estados Unidos, por exemplo, foi criado dentro de uma das mais importantes e tradicionais empresas de telefonia no ano de 1987.

O mundo mudou e nunca foi tão importante a criação de ambientes inclusivos, principalmente dentro dessa onda conservadora que temos visto no mercado de trabalho nos últimos tempos. Infelizmente dados recentes mostram que estamos longe de conseguir isso. Há dois anos, a Elancers, uma importante empresa de consultoria, realizou estudo com profissionais de recursos humanos e revelou que um em cada cinco não contratariam candidatos por conta de sua orientação sexual. Cerca de 11% dos 2.000 entrevistados recusaria contratá-los para cargos de liderança e 7% para nenhum cargo. O mais triste disso tudo é que muitos usaram o argumento de que não há pessoas verdadeiramente qualificadas para assumir esses papéis ou, pior, que não desejam ter a imagem da empresa atrelada diretamente à profissionais LGBTQ. Em 2016 foi divulgada uma pesquisa do Center for Talent Innovation, onde 61% dos profissionais LGBTQ afirmaram que escondem sua sexualidade para os colegas ou gestores e que 49% não falam abertamente sobre o tema, porém não fazem questão de ocultá-lo.

Nunca me pediram para manter minha orientação sexual em segredo, mas no meu primeiro emprego, em uma empresa bem conservadora do mercado de tecnologia de turismo, jamais me senti confortável para fazer isso. Carreguei esse peso, inclusive quando migrei para meu segundo emprego onde, por um determinado período, ninguém ficou sabendo disso. Estar confortável ou não, tem ligação direta a um preconceito velado que é manifestado quando a homossexualidade se torna motivo de risos no ambiente de trabalho.

A empresa holandesa Out Now, especializada no público LGBTQ, entrevistou 12.000 profissionais em dez países e mostrou que 68% deles já escutaram alguma brincadeira desrespeitosa no trabalho. Trazendo isso diretamente para o Brasil, a Santo Caos realizou uma pesquisa em 14 estados diferentes, com profissionais entre 18 e 50 anos e 40% deles já sofreu discriminação direta e todos já relataram discriminação velada.

Essa informação é tão verdadeira que muita gente não consegue separar preconceito velado de boa intenção. É importante entendermos que preconceito é um conceito formado antes de um entendimento. Ele pode não ser ofensivo, mas pode ampliar a pressão em uma pessoa que já é afetada por uma série de outras tensões. Por exemplo, eu já ouvi de um diretor que havia me contratado por saber que eu era gay e achar que gays são mais racionais. Aliás, falou mais de uma vez. Esse tipo de “elogio” sem qualquer relação com orientação sexual também é preconceito e pode gerar desconfortos, traumas e pressões desconexas.

Ainda falta exemplo de grandes líderes assumidamente gays e isso dificulta o desenvolvimento da segurança necessária para se estruturar como autoridade, independentemente de seu gênero e de sua orientação. Quando comecei a trabalhar com um time completo respondendo para mim, sempre tentei me provar como uma autoridade com perfil masculino. Hoje, já acredito que liderança está no fato das pessoas te verem como referência em conhecimento, habilidades, caráter, etc. É preciso que as pessoas te vejam como alguém que podem confiar e não é necessário se basear em estereótipo de gênero para conseguir isso.

A i-Cherry é uma agência com uma política muito clara e com muito respeito. Desde a entrevista nunca escondi minha sexualidade. Acredito que entrei aqui com um autoconhecimento muito estabelecido e o caminho da liderança foi naturalmente reconhecida em cima dos meus atributos profissionais. Vale lembrar que diversidade engloba muita coisa e que ainda existe uma questão muito delicada quanto a comentários carregados de preconceito velado, tanto com LGBTQ, quanto com mulheres, negros e pessoas com menor poder aquisitivo. Já existem movimentos para que essas situações não aconteçam, mas é um trabalho de formiguinha, leva tempo para mudar e precisa ser abraçado por todos. O importante no fim do dia é nos mantermos claros, convictos dos nossos princípios e, sempre que possível, exercitarmos um ambiente de respeito profissional. Isso vale tanto para líderes quanto para equipes. Preconceito ou discriminação por qualquer aspecto é sempre cruel e desnecessário.

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